FLT promoveu Jornada Acadêmica sobre Ideologia de Gênero

Ocorreu nos dias 8 e 9 de março, no auditório da FLT, a Jornada Acadêmica 2016. O evento iniciou com uma devocional, feita pela Missionária Joseane Müller, e uma pequena homenagem ao Dia da Mulher. Contando com a presença de ca. de 180 participantes, entre estudantes de teologia da FLT e outros centros de formação teológica, da IECLB e de outras instituições, pastores e missionários, ​lideranças de comunidades e visitantes em geral, o evento tratou do tema "ideologia de gênero". Intenção foi clarear junto aos participantes uma série de equívocos existentes na opinião comum em torno do uso do conceito "gênero", bem como viabilizar aos participantes o conhecimento, a partir do estudo detalhado das fontes originais dos principais pensadores que forjaram histórica-, filosófica- e culturalmente o conceito recente de gênero.

Em nossas comunidades e no senso comum, normalmente parte-se do pressuposto que gênero é um sinônimo, ou uma outra palavra para sexo. Há desconhecimento do significado nada neutro desse termo desde a Conferência de Pequim, o Fórum Internacional da ONU, que tratou do tema da mulher, em 1995. Também impera desconhecimento sobre o exato significado do termo na literatura produzida pelo assim-chamado feminino de gênero recente (pela assim-chamada segunda e, em especial, terceira onda do feminismo), bem como pelo Movimento Queer. Fato é que o conceito de gênero e as reivindicações do feminismo de gênero, foram assumidos no discurso, na linguagem cotidiana (linguagem inclusiva) e nos posicionamentos oficiais de vários grupos e igrejas cristãs. A questão que surge e que precisa ser clareada é, se nessa acepção, ele foi realmente compreendido quanto ao significado e fundo ideológico, ao ser usado na sociedade, na política e no âmbito jurídico, e nas igrejas. Se ele foi assumido integralmente, ou se houve alguma correção ou ressalva a partir da teologia e também das tradições confessionais das igrejas que tem optado por usá-lo e propagá-lo.
Outra questão é que o conceito, desde a conferência da ONU em Pequim 1995, tem sido veiculado como instrumento na defesa de causas humanitárias em torno dos direitos da mulher (violência contra a mulher, abuso sexual contra mulher, patriarcalismo existente em várias sociedades, luta contra o machismo, melhores condições de acesso ao mercado de trabalho, melhores possibilidades de remuneração e colocação, também em funções de posição, etc). A busca de relações mais igualitárias nas sociedades globais e a defesa dessas causas humanitárias, já tem sido vistos há muito tempo como uma tarefa importante, também das igrejas cristãs. Faz parte da natureza do evangelho cristão que, onde ele é acolhido, ele promove o respeito à dignidade humana e relações mais justas, tanto para homens como para mulheres). No entanto, na medida em que desde Pequim se preconizou usar o termo "gênero" - como resultado de um controverso processo de "consenso" internacional - em defesa dessas causas, surgiu uma simbiose que oculta, por detrás de boas causas humanitárias, um conceito de "gênero" em uma acepção problemática, claramente ideológica. São diversos os estudiosos, em nível internacional, tanto de igrejas, como da sociedade civil organizada, que tem chamado atenção para os problemas dessa concepção ideológica de gênero.
Assim, foi visando aprofundar o conhecimento de causa das raízes históricas e filosóficas, bem como do conhecimento de causa do processo que, iniciado na ONU, passando por poderosas ONGs internacionais, sendo acolhido por organismos supra nacionais e supra eclesiásticos internacionais, chegou às igrejas nacionais e culminou com uso do conceito em amplos setores, que a Jornada Acadêmica ocorreu.

A primeira palestrante foi a profa. Fernanda Takitani, uma das pessoas que mais se destacou no esclarecimento do conceito junto aos políticos do senado federal e da câmara dos deputados nos embates em torno das discussões recentes (p. ex. PL 122, e PNE - Plano Nacional de Educação, entre outros). ​Fernanda faz parte e é uma das articuladoras da Rede Nacional de Direitos e Defesa da Família, entidade cujo trabalho pode-se conhecer melhor nos links que seguem:

http://www.rededefesadafamilia.com.br/podemos-confiar-a-educacao-de-nossos-filhos-aos-burocratas-da-onu/

http://www.rededefesadafamilia.com.br/base-curricular-centralizada-a-quem-interessa/

http://www.rededefesadafamilia.com.br/common-core-educacao-comunista-nos-eua/" target=blank

http://www.rededefesadafamilia.com.br/pais-reagem-a-imposicao-de-genero-nas-escolas-breve-relato-de-um-caso-concreto/

http://www.rededefesadafamilia.com.br/professores-falam-contra-o-common-core/​

​Fernanda Takitani​ apresentou, ao longo do primeiro dia, com riqueza de detalhes, uma abordagem histórica e filosófica das raízes do conceito de gênero, apresentando seu significado nas grandes pensadoras do feminismo de gênero recente, incluindo, principalmente, a principal obra de referência, de Judith Butler, além de diversas outras.​ Rastreou a influência do pensamento da dialética revolucionária da história marxista sobre a visão da família e do gênero. ​ Faz parte da definição do conceito recente de gênero, tal qual articulado pelo feminismo de gênero e pelo movimento Queer internacional, que se afirme que a sexualidade humana é basicamente um construto social, e que precisa ser desvinculado do sexo biológico. A pessoa define seu gênero a partir de uma decisão baseada em seus sentimentos, preferências e opções de vida, ao longo de sua caminhada, sendo ensinada que seu gênero não precisa coincidir com seu sexo biológico, ou seja, com o fato de ter corpo de homem ou de mulher. O problema que decorre é que pessoas são motivadas a se definirem sexualmente sem considerarem sua biologia, o que gera confusão na identidade sexual. Takitani concentrou-se, basicamente, em citar os vários teóricos, citar os vários textos de documentos internacionais (p. ex. de Pequim, entre outros), e, por fim, os textos discutidos no âmbito jurídico brasileiro. Esses textos foram, então, analisados e discutidos.

No segundo dia, o palestrante foi Guilherme de Carvalho, Presidente do L´Abri do Brasil e um dos idealizadores da Associação Brasileira Cristãos na Ciência​ (veja www.cristaosnaciencia.org.br). Ele igualmente aprofundou, em sua abordagem, o estudo das raízes filosóficas do conceito, indo às raízes do pensamento da autonomia e auto-determinação do sujeito autônomo moderno. Em sua abordagem, ele também concentrou-se em discutir a questão da relação entre masculinidade e feminilidade, tendo por referência a antropologia judaico-cristã e as relações entre as pessoas da trindade​ divina​. Em suma, Guilherme de Carvalho caminhou para a apresentação de uma avaliação crítica da ideologia de gênero a partir dos principais referenciais do cristianismo, mostrando o quanto é problemático e fator gerador de confusão e desorientação a adoção desse conceito.

O resultado a que o evento chegou é o de que o uso do conceito de gênero, apesar de determinadas proximidades com a tradição cristã​, não deixa de ser​

altamente problemático. Percebeu-se que é preciso distinguir causas humanitárias em favor das quais como cristãos e igrejas precisamos estar envolvidos, em especial em torno do lugar da mulher na sociedade, do conceito de gênero. Concluiu-se, ainda, que é possível engajar-se como cristãos por essas causas a partir do próprio evangelho, sendo desnecessário e até nocivo usar o ferramental das ideologias de gênero e o próprio conceito de gênero. Em decorrência do encontro, concluiu-se que faz-se necessário, e com urgência, convidar a sociedade e membros de igreja a lerem junto passagens centrais sobre os teóricos do gênero e o que pretendem, para daí serem motivados a se posicionarem. Entende-se que a versão que tem sido apresentada na mídia e lobbys de gênero, normalmente veiculados junto à nobres causas humanitárias, escondem a verdadeira natureza e o caráter ideológico do gênero.

O evento levantou aspectos centrais sobre o assunto, capacitando os participantes ao discernimento e à ação. As discussões certamente não estão no fim no âmbito da FLT, cabendo aprofundar o diálogo crítico e construtivo com quem articula o conceito de gênero em encontros futuros.

Prof. Dr. Claus Schwambach

Faculdade Luterana de Teologia - FLT
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